Levei hoje o meu filho ao barbeiro

Levei hoje o meu filho ao barbeiro. Visita rotineira na sua cadência mensal forçada pelo crescimento constante do que tenta desesperadamente ser juba selvagem.
E ali estava eu, sentada descansada, entretida com os saltos e rebolos da sua irmã, relaxada na frescura amena do ar artificial, quando o vi.
Vi-o como naquele momento em que de mim saiu e a parteira no ar o elevou, cordão esticado e voz afinada, e eu, erguendo a cabeça, o vi. Frágil no corpo, indomável no espírito. E pensei: de onde saiu tão perfeita criatura?
Ali assim, de costas voltadas para mim, escondido debaixo do penteador amarelo onde deslizam velozes aqueles carros que ele sonha sempre em corridas, a cabeça alta erguida e o movimento destro do barbeiro que lhe leva o cabelo e lhe deixa memórias.
É a primeira vez que deixa o suave deslizar da máquina tocar aquela nuca que é minha quase todas as manhãs. As manhãs do “despacha-te que chegas atrasado”, do “come que chegas atrasado”, do “calça-te que chegas atrasado” e do “penteias-me tu, mamã?”.
As nossas manhãs. Em que ele se perde a imaginar o futuro com as suas colónias em Marte e as suas naves espaciais e seus os carros que voam. E nas suas infinitas conversas matutinas que começam com cereais a balançar vagarosos num morno mar branco e terminam à porta da escola onde o deixa o pai que sopra a soma dos atrasos na pressa de chegar ao trabalho.
As suas conversas. Perguntam-lhe agora se já ouviu falar daquele jogador português que vem para a Itália. Diz que sim, que ouviu no intervalo do jogo, aquele de ontem, aquele dos ingleses com os outros. Perguntam-lhe sobre as férias. Parece que estão quase. O que tem feito nestes dias. Se gosta do que faz. O quanto se diverte. Perguntam-lhe se quer mais curto, se os lados estão bem, como quer a franja.
A resposta é tranquila na certeza do que se quer e o nosso olhar já não se cruza no reflexo imenso desta distância que nos une.
E é neste momento que eu o vejo pela primeira vez. Outra vez.
Este meu filho é o meu filho mas não é.
Este meu filho já não apanha flores porque são bonitas. As flores agora guardam histórias de abelhas e borboletas, de polinizações e ventos distraídos. Ventos que levam as flores a nascer mais longe, lá onde ele ainda não chega para mas apanhar.
O telefone já o usa este meu filho. Já não me pede para ligar para o aeroporto e perguntar se podem fazer passar um avião. No outro lado, agora, está a voz do pai que lhe diz que sim, que está mesmo a sair, que vão brincar juntos quando ele chegar a casa. E obrigado por teres telefonado.
Decide o que vestir, o que calçar, o que comer, ao que brincar. Decide que quer estar sozinho, que quer estar comigo, que precisa de paz, que precisa de um amigo.
Este meu filho é o meu filho mas já não é o meu bebé. É o meu menino.
Pergunto-me, agora que lhe pouso um beijo enquanto dorme tranquilo, de onde saiu tão perfeita criatura.
Cresceu comigo e eu com ele. Mas isto ele ainda não o sabe e eu só hoje o estou a ver. E não por este ser um dia especial. Mas apenas porque levei hoje o meu filho ao barbeiro.

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