Da minha janela

São duas as irmãs que, braço no braço, descem a avenida, os anos passados contados nas floras estampadas do vestido e no rosa impresso dos lábios.

São duas, mas já foram mais as que, juntas, descansavam perto da minha janela.

Sentam-se ali, no outro lado da rua, o prédio alto a fazer-lhes sombra às conversas caladas no trânsito incessante e no calor sufocante destes últimos dias quentes de outono.

Há muito que não lhes oiço as vozes, fechadas num baú bafiento, memórias escondidas de um tempo passado que acorda violento no fôlego último da janela emperrada.

Sentam-se ali, como sempre se sentaram, apesar de haver quem me diga que tudo mudou. Rio-me. A cidade fez-se adulta, sim, mas o seu mundo não cresceu, asfixiado em vénias solenes pontuais como o sino da igreja.

Um…
Dois…
Três…
Quatro…
Cinco…
Seis…

Soava alto o comando, instintivo no destroçar da miudagem que corria solta pela avenida, e sentavam-se as irmãs, firmes no carácter, tranquilas na moral, seguras no quieto criticar.

Sentia-te íntimo o cheiro a peixe quando me apertavas forte a mão, a bata suja e a faca de descabeçar as sardinhas esquecida no bolso, e me obrigavas a alçar a vista. “Cabeça erguida que ninguém é perfeito”, dizias. E eu acreditava.

Respirar. Caminhar. Um pé. Depois o outro. Respirar. E a mão? A outra mão? Nervosa, a esconder a madeixa curta que teimava em se soltar e a tia Maria que me olhava a direito dentro, a fazer-me pequena no seu vácuo puro e intacto.

– Abre a janela, rapariga, deixa sair o mau ar. – Apressavas-me, extinto o peixe no aroma suave da alfazema.

E eu abria. De cabeça baixa para o ventre inchado, com a tua mão na minha, a obrigar-me a alçar a vista, mesmo quando quase todas preferiam desviar o olhar. Olhos cerrados a esta suestada forte que embala o pó do deserto e te trás até mim.

Chegas improvisa como a sirene da fábrica nas manhãs de inverno e desejo-te aqui para sempre. Assim… A minha cabeça apoiada no afago morno do teu ombro, a madeixa pequena a sair do seu lugar, o vento quente, o sino alto, a sirene forte, os pombos assustados, a tia enfadada… E o teu sorriso grande a encher-me a vida de gargalhadas corajosas.

Sabes uma coisa? Continuo a queimar os folares. Aqueles da receita infalível, lembras-te? Com a erva-doce q.b. e o açúcar generoso. Aqueles que amassávamos juntas antes da adoração da Cruz, lembras-te? Agora vendem-nos nos supermercados, sabias? Sabem de erva-doce, mas não de ti.

Vêm à memória aqueles folares que nunca chegámos a cozer. Apertam-se fortes as mãos e ficam cheios os olhos. Lembram-nos as lágrimas daquela santa sexta feita Natal. Recordam os meus gritos e o “ai valha-me Nosso Senhor Altíssimo que este anjinho chega com o trabalho todo feito” da parteira quando me separou do meu menino ainda na ambulância. Lembras-te dela? Nascimento, um nome mesmo a jeito. Cruzei-me com ela no mercado esta manhã. Está velha, mas está cá. Quis mandar-te cumprimentos, acabou por pedir desculpa.

Há quanto tempo não nos entrava a suestada pela janela?

Também havia vento naquele dia. Mas não como o de hoje. Não como este que te acorda em mim na saudade imensa das nossas tardes juntas, do perfume dos folares e do teu aroma a flores.

Noutros tempos soprarias tão forte quanto este vento a indignação da areia leve que te deixava a açoteia amarela e te obrigava a lavar as janelas outra vez.

Culpas ao vento, para minha grande consolação, até mesmo quando as sirenes deixaram de tocar, as mulheres deixaram de correr e a vida nos levou para longe dos folares das sextas santas e da intimidade das tardes passadas juntas.

Acorda-me o urgente estridular de uma ambulância no túnel e perco-te no soltares-me a mão.

Gostava que não te tivesses ido…

A tia Maria olha-me a eito, lá do outro lado da rua, por cima do trânsito incessante e do calor sufocante, a querer fazer-me pequena numa vergonha que há muito abandonei. Sorrio-lhe, no espanto desta minha cabeça erguida, indiferente a sentenças que leva a maré.

Fecho a janela, apago a luz e guardo-te outra vez em mim.

O meu mundo cresceu e eu com ele, e a cidade adulta de sino a tocar e velhas a falar leva-ma o vento quente de areias subtis.

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