Este nosso apeadeiro

Dava ordens maquinalmente, sem tirar os seus olhos dos dele e sem vacilar.
As mãos da enfermeira moviam-se com a determinação e a precisão que a profissão lhe exigia, mas ela sabia que era cada vez mais difícil encontrar um ponto de acesso ao corpo frágil em que ele se transformara.
– Estás a olhar para mim, assim, porquê? Tu não me pregues nenhuma partida, homem, que o teu comboio vai partir atrasado.
Notou o alçar convicto dos ombros da enfermeira e viu-a acertar o fluxo das gotas de alívio que leu nos olhos dele.
Deixou-o quando o sentiu adormecer.
Sentada à mesa da cozinha, a chávena de chá a gelar-se-lhe nas mãos, esperava pelas lágrimas que teimavam em não chegar. Sentia-se seca dentro, sem poder rir ou chorar.
Ouvia-o gritar-lhe à sua janela:
– Já chega! Estou farto! Há anos que espero, como um cão, por ti e vens-me agora dizer que encontraste o amor da tua vida? Quantas vezes tenho que te passar diante dos olhos para acreditares em amor à primeira vista? Eu – eu, ouviste? – amo-te, não ele. Estou cansado de estar deitado no teu tapete. E hoje, ou me deixas entrar, ou deixo de abanar a cauda por ti.
Eram três da manhã e poucas foram as vizinhas que não comentaram o sucedido, na manhã seguinte, na mercearia do bairro, enquanto ela via partir o comboio que o levava para estudar longe dali.
Naquela noite, antes de adormecer, sentira leve a mão da sua mãe sobre o rosto, dizia-lhe para seguir o coração, mas ela sabia que não podia começar uma vida com um homem, matando o filho de outro.
Sentia agora essa mesma mão, mais experiente e enrugada, a tirar-lhe o frio das suas e a trazê-la de volta à sua cozinha, às recomendações de dormir e comer.
– Porque o teu marido precisa de ti, Maria. És uma mulher, e as mulheres fazem sempre o possível, o impossível e o que tem que ser feito.
Era dormir o impossível.
Ficava ali deitada, com o corpo pesado e a mente órfã, a esperar por um sono que teimava em passar longe daquele leito meio vazio.
Há quanto tempo não dormia ele ali? Há quanto tempo não partilhavam a frescura dos lençóis e o calor suave do edredão? Há quanto tempo não se partilhavam naquela cama?
Sentia o medo a crescer-lhe abrupto na barriga, como no dia em que o esperara na estação dos comboios, o filho do outro pela mão, para lhe dizer que, se ele ainda a quisesse, ela estava ali, não estava sozinha, mas estava ali, para ele, por ele, porque nunca o poderia deixar de amar.
Amava-o desde aquele dia em que o tinha ouvido chorar baixinho.
Fora a correr chamar a sua mãe – fora precisa coragem para desistir do seu segredo, para a guiar através do sótão da velha casa até ao alçapão que dava para o apartamento ao lado, onde moravam os novos vizinhos.
Maria nunca soube exatamente o que vira a sua mãe através do alçapão.
Estava escuro.
Mas podia adivinhar.
E o João ainda tinha medo do escuro.
Levantou-se. Eram inúteis quaisquer tentativas de cumprir as ordens da sua mãe.
No corredor cheirava a sopa de feijão e ouvia-se a voz do Pedro, que lia as últimas notícias desportivas ao padrasto. Tremiam-lhe as mãos, não a voz.
– Maria, se já não precisas de mim por hoje, vou para o hospital.
O hospital, a sua segunda casa, assemelhava-se cada vez mais a um país muito distante, e ela perdera a vontade de carimbar o seu passaporte. Não sabia como continuaria a viajar sozinha. Assustava-a ser o eu depois do nós, o ermo depois da multidão de emoções que haviam partilhado, criado e distribuído.
Haviam iniciado a sua última viagem juntos. Em sentido único e com tempos diversos, mas com igual destino.
– Fecha os olhos quando quiseres, meu amor, e não tenhas medo – sussurrou-lhe –, que esta vida é só um apeadeiro e a estação onde nos encontraremos é feita de luz.

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