Ferragosto

É meio-dia em ponto.
Fica à direita, para quem vem daquela rua estreita onde o trânsito acaba, a basílica dedicada a São Pedro Apóstolo, catedral desta pequena cidade mais conhecida pela superioridade do seu vinho branco (aquele que pagou a construção deste primeiríssimo lugar de culto) do que pelo desvelo católico dos seus habitantes.
Veem deserta os santos mármores, altos e imperturbáveis na fachada dos seus nichos, a ilha central desta pequena praça, ardente na sua calçada abandonada à canícula deste quinze de agosto, por aqui dia quase tão santo quanto os do nascimento e da morte do Cristo Redentor.
Cristo Redentor, Cristo Censurador.
Como aquele que, ali no tranquilo badalar dos sinos por cima da porta principal, crítica em alto-relevo a pouca fé deste Simão feito pedra basilar do seu pio legado à frente de todos quantos os queiram ver.
E não são muitos, neste dia tão quente e tão solitário.
Estão ali na sombra da galeria, a que se atravessa para chegar ao mercado, dois turistas sedentos, de bicicletas encostadas à bombardeada fonte de 43, exaustos na estival tentativa de pedalar estrada acima até à muito desejada (e sombreada) meta.
“Holandeses!”, pensa ela, sorrindo-lhes aos rostos corados como lagostas na noite última do ano e ao evidente turco branco que lhes enfaixa os pés.
Era ali assim, parada no meio daquela calçada, o rosto escondido pela grande aba de palha e o corpo envolto em ligeiro algodão, boneca de porcelana esquecida na montra de uma infindável loja de brinquedos.
De cabeça erguida contemplava as horárias diferenças em torres que os dois holandeses não notavam, absortos nos finos tornozelos que, em equilíbrio alto e delgado, se alongavam, alongavam, alongavam até ao perfeito interminável.
Anteviam-lhe o contorno de íntimos brocados, curiosos no branco do vestido que a cobria, enquanto se lhe alçava o peito devagar, hesitante no respirar aquele ar quente que os envolvia.
Aqui é assim o ar de verão: quente, húmido, colado à tua pele, a queimar-te dentro sem lhe poderes fugir, a fazer desta praça multidão a cada final de dia: cada oitavo da escadaria que leva à adoração do Apóstolo repleto de gente sentada na frescura de cada início de noite.
Derretem-se suaves os gelados nas línguas soltas que enchem esta praça com nome de santo com o zumbido intenso da vida humana.
São estes os migrantes do estio, os sobreviventes da grande metrópole, os que partem para o mais próximo destino neste dia que é quase tão santo quanto outros.
Enche-se a praça de gente. Até sermos muitos, tantos, demais.
Somos todos a criança que sopra a bola de sabão, o sarcófago egípcio em agradecidas vénias, o nómada acordeonista de frágeis interpretações, o turista corado de bicicleta escondida, a rapariga de vestido branco em desatento equilíbrio.
Somos todos e somos um.
E é neste sermos assim que deixamos que escorra lento o tempo, que se faça pequena e vazia esta noite de conversas infindáveis, que deixamos que soem altas, tão altas, as badaladas dos sinos lá no cimo.
Por cima dos degraus, das vozes, das críticas.
É meio-dia em ponto.

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